domingo, dezembro 10, 2023
In√≠cio ¬Ľ Ind√≠genas refugiados denuncia fome e abandono em Bras√≠lia

Indígenas refugiados denuncia fome e abandono em Brasília

Os Warao Coromoto vivem numa regi√£o rural do Parano√° e precisam pedir dinheiro nas ruas para sobreviver

por Ricardo Souza
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O abandono dos povos ind√≠genas n√£o atingiu apenas os Yanomamis. A 55 quil√īmetros do Pal√°cio do Planalto e do cora√ß√£o da capital do pa√≠s, os Warao Coromoto sofrem com fome e doen√ßas em um terreno alugado na regi√£o rural do Caf√© sem Troco, no Parano√°. Para sobreviver, eles dependem de doa√ß√Ķes e mendigam pelas ruas do Distrito Federal.

‚ÄúCrian√ßas choram de fome aqui, queremos ter a nossa autonomia. Atualmente, estamos consumindo √°gua de po√ßo e devemos R$ 5 mil de energia‚ÄĚ, relatou o cacique Miguel Ant√īnio Quijada Lorenzano, de 44 anos.

Refugiada da Venezuela, a comunidade Warao Coromoto tem 31 famílias distribuídas em 126 pessoas. Deste total, 54 são crianças. Além da falta de comida, a aldeia não conta com banheiros. Necessidades básicas são feitas em matagais na vizinhança e banhos somente com água de poço.

Castigados por condi√ß√Ķes insalubres, os Warao Coromoto adoecem frequentemente. Febre, diarreia e v√īmitos atormentam as crian√ßas, semanalmente. Na quinta-feira (9/3), ap√≥s sofrer dias com dores causadas por complica√ß√Ķes p√≥s-cir√ļrgicas, um dos membros da comunidade foi socorrido de ambul√Ęncia para um hospital da rede p√ļblica.

Segundo o cacique Miguel, o Governo do Distrito Federal (GDF) abandonou a comunidade. Os Warao Coromoto recebiam apoio para alimentação e aluguel social. No entanto, sempre sonharam com autonomia financeira. As mulheres são artesãs habilidosas e os homens têm aptidão para a produção rural.

Em 2022, com parceria da instituição Aldeias Infantis SOS Brasil, apresentaram um projeto de autonomia e infraestrutura para Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes). A proposta foi aprovada e recebeu uma emenda de R$ 500 mil do deputado distrital Fábio Felix (PSol). Mas, ao final de 2022, de acordo com o líder indígena, a pasta suspendeu a iniciativa.

‚ÄúInfelizmente, o GDF lavou as m√£os‚ÄĚ, lamentou o cacique. Sem dinheiro, os Warao Coromoto correm o risco de ser despejados em breve. ‚ÄúO governo n√£o entende a nossa dor. Para dar o que comer √†s nossas fam√≠lias, temos de sair √†s ruas e pedir dinheiro‚ÄĚ, lamentou.

Degradação

Gilberto Portes de Oliveira, 54, √© o administrador volunt√°rio da comunidade Warao Coromoto. ‚ÄúEles est√£o correndo risco. As crian√ßas caminham para um processo de desnutri√ß√£o generalizada‚ÄĚ, alertou.

Do ponto de vista de Portes, o drama dos Warao Coromoto levantou outra questão: o Brasil ainda não possui uma política consolidada para tratar os indígenas migrantes. Atualmente, são tratados como refugiados. Para o administrador voluntário, este grupo deveria ser inserido na política nacional indigenista.

Nossa senhora

Pelas contas de Portes, a partir 2015, cerca de 5,8 mil membros da etnia Warao come√ßaram a buscar ref√ļgio no Brasil. Em 2018, a comunidade Coromoto, batizada em refer√™ncia √† padroeira da Venezuela, Nossa Senhora de Coromoto, veio para o DF.

Inicialmente viviam nas ruas, pedindo ajuda. Em 2019, conseguiram um espaço em São Sebastião, graças a uma trabalho do GDF e da Arquidiocese de Brasília. No entanto, não se adaptaram. Na sequência, criaram uma associação e conseguiram alugar o terreno no Café sem Troco de um empresário humanitário.

Segundo Portes, recentemente, a Ag√™ncia da ONU para Refugiados (ACNUR) doou barracas para comunidade. No entanto, sem apoio financeiro para a autonomia, dificilmente conseguir√° se manter por mais de 90 dias nas condi√ß√Ķes atuais.

Arepa

A principal fonte de nutrição dos Warao Coromoto é a arepa, uma espécie de bolo de milho. O alimento pode ser cozido ou assado. Além disso, também pode ser misturado com frango, carne ou peixe. Outro prato típico é a torta de arina, feita com farinha de trigo.

O deputado F√°bio Felix √© presidente da Comiss√£o de Direitos Humanos da C√Ęmara Legislativa (CLDF). Al√©m de cobrar provid√™ncias do GDF, ele pretende pedir investiga√ß√£o por parte do Minist√©rio P√ļblico e acionar os minist√©rios dos Direitos Humanos e da Justi√ßa.

‚Äú√Č estarrecedora a neglig√™ncia do GDF com os ind√≠genas Warao. Est√£o sendo v√≠timas de todo tipo de precariza√ß√£o e abandono. Recebemos relatos de desnutri√ß√£o ‚Äď inclusive de crian√ßas e idosos -, doen√ßas graves com recusa de atendimento por parte da Secretaria de Sa√ļde, entre outras viola√ß√Ķes intoler√°veis de direitos humanos‚ÄĚ, disse o parlamentar.

Consternados

O Departamento de Migra√ß√Ķes (Demig) da Secretaria Nacional de Justi√ßa do Minist√©rio da Justi√ßa e Seguran√ßa P√ļblica afirmou que acompanha o caso. Segundo a pasta, todos os ind√≠genas na comunidade est√£o em condi√ß√£o migrat√≥ria regular e com documenta√ß√£o em dia.

O √≥rg√£o federal ficou surpreso com a suspens√£o do apoio aos Warao Coromoto. ‚ÄúMesmo n√£o sendo compet√™ncia direta do Demig, estamos consternados com a situa√ß√£o e contatando as autoridades competentes para realizar um plano de a√ß√£o conjunta a fim de reverter a situa√ß√£o‚ÄĚ, destacou o departamento.

Sedes

A Sedes negou o abandono. Confirmou a tramitação do projeto de autonomia, contudo afirmou que o processo foi interrompido porque a organização da sociedade civil que representava a comunidade teria desistido. Segundo a pasta, a comunidade está inserida nos programas sociais do GDF. Também argumentou que apoio a Acnur na instalação de barracas para os indígenas.

Negativa

Questionados novamente pelo Metrópoles, os Warou Coromoto afirmaram que não desistiram do projeto de autonomia em momento algum. A comunidade indígena confirmou a participação de alguns membros em programas de capacitação e o recebimento do cartão Prato Cheio. No entanto, argumentou que o valor do benefício é insuficiente para o sustento e a segurança alimentar das famílias.

Educação

Após a publicação da reportagem, no domingo (12/3), a secretária de Educação do DF, Hélvia Paranaguá, procurou o Metrópoles para informar que a pasta possui um projeto para matricular todas as crianças da comunidade indígena e faz o acompanhamento educacional dos pequenos.

Segundo a secret√°ria, a pasta de Educa√ß√£o oferece salas para todas as crian√ßas da comunidade na escolas Morro da Cruz (S√£o Sebasti√£o) e Caf√© sem Troco (Parano√°). ‚ÄúElas v√£o de segunda a sexta para a escola. S√£o alimentadas na escola‚ÄĚ, declarou Paranagu√°.

A pasta oferece uma professora de espanhol e uma educadora com mestrado em educa√ß√£o ind√≠gena. H√©lvia disse que o vice-cacique e a esposa foram contratados como educadores sociais volunt√°rios, para ajudar como interpretes. A secret√°ria destacou que todo trabalho √© acompanhado pelo Minist√©rio P√ļblico do DF e Territ√≥rios (MPDFT).

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